O BRINQUEDO E A CRIANÇA
Dinéia Hypolitto
Professora de Prática de Ensino e Coordenadora de Estágio da Universidade São Judas Tadeu (USJT) – SP.
Mestre em Educação pelo Programa de Pós-Graduação em Educação e Currículo da PUC-SP.
Supervisora aposentada da Secretaria de Educação do Estado de São Paulo.

Brinquedo e criança são uma combinação perfeita e inseparável. O apelo lúdico vem – em meios mais sofisticados – da manipulação televisiva, onde não faltam os brinquedos importados, cheios de cor e vida.
No entanto, uma criança, não necessariamente de periferia, pode fazer da observação de uma formiga saúva, comunicando-se em cochichos com as amigas, enquanto carrega folhas para o formigueiro – um entretenimento de horas e horas. Em oposição à sua postura quieta, o seu imaginário agita-se ao idealizar a “casinha da formiga”.
E quando faz o enterro de um sapo, então, repetindo e enriquecendo o ritual dos vivos, preparando-se – sem saber – para a grande incógnita da vida, que é, sem dúvida, a morte.
Como fruto dos tempos presentes, as crianças, no geral, não mais têm acesso às puras brincadeiras de rua – consagradas pelo folclore (brinquedos de roda, “foguinho”, pular corda, amarelinha, barra-manteiga, etc.)
Em um tempo muito rápido, as relações dos extratos sociais de que é formada a sociedade capitalista deram uma guinada de 360º. As famílias com suas crianças ficaram enjauladas em seus lares, com toda a parafernália anti-roubo instaladas, enquanto as crianças dependuradas em janelas com grades protetoras, observam a vida passar.
Esse descompasso social não permite vislumbrar nenhum melhoramento a curto prazo.
Goleman, psicólogo, PhD pela Universidade de Harvard nos diz que juntamente com essa atmosfera de “mal estar social”, há sinais de um crescente mal estar emocional, sobretudo entre as crianças, devido a infância estar mudando nos dias de hoje.
Há uma frase bíblica que dizia: “Os tempos estão chegados”.
Ao ter que conviver com essa realidade, cabe à escola, criar espaços tão lúdicos como libertadores, para resgatar um direito inalienável: o de ser “criança”.
A brinquedoteca nas escolas não deverão existir para “distrair” as crianças como bem explicou a Professora Nylse, em sua palestra, mas sim deverá preocupar-se com a formação do ser humano integral e ao período de vida no qual ele está sendo cultivado.

Cada brinquedoteca apresentará o perfil de sua comunidade. Há diferentes tipos de brinquedotecas:
1) Brinquedotecas nas escolas: – creches, escolas infantis – com finalidades pedagógicas;
2) Brinquedotecas de comunidades ou bairros geralmente mantidas por associações, prefeituras, organizações filantrópicas;
3) Brinquedotecas para crianças portadoras de deficiências físicas e mentais;
4) Brinquedotecas em hospitais;
5) Brinquedotecas em Universidades: objetivando especialmente a formação de Recursos Humanos, a pesquisa e a prestação de serviços a comunidade. Ex.: A LABRINP Laboratório de Brinquedos e Materiais Pedagógicos na Faculdade de Educação da USP, foi pioneira como brinquedoteca em São Paulo;
6) Brinquedotecas Circulantes: ônibus – brinquedotecas itinerantes para crianças da periferia, PUC – SP “Ônibus Ludicidade”;
7) Brinquedotecas em clínicas psicológicas;
Brinquedotecas em centros culturais
9) Brinquedotecas junto às bibliotecas (Bélgica só para empréstimo).
Apesar da grande diversidade há um objetivo comum que as une: o desenvolvimento de atividades lúdicas e o empréstimo de brinquedos e materiais de jogo.

Acreditamos que todas deverão estabelecer, sem dúvida, forte elo entre o conhecimento e sua construção, uma vez que a partir das experiências lúdicas, o construtivismo (construir na ação) pode realmente encontrar a sua concretude, o seu significado.
Segundo Adriana Friedmann, que defendeu sua tese de mestrado sob o tema “Jogos tradicionais na cidade de São Paulo”, na UNICAMP em 1990, a brinquedoteca é hoje, um dos caminhos que pode ser oferecido às crianças de qualquer idade e faixa sócio-econômica com a finalidade de resgatar o espaço fundamental da brincadeira, que vem gradativamente se perdendo e comprometendo o desenvolvimento infantil como um todo.
O fundamental é podermos oferecer às nossas crianças oportunidades para exercer o direito de brincar conforme reza o “Estatuto da Criança e do Adolescente” (julho/1990) em seu artigo 16, inciso IV:
“O direito à liberdade: “de” IV brincar, praticar esportes e divertir-se”.
Reconhecer esse “direito da criança de brincar” consequentemente implicará na preocupação com a formação dos adultos que dela se ocupam, que sejam professores ou educadores ou brinquedistas.
O importante é que devemos repensar a formação desses profissionais quer nos cursos de 2º grau – magistério, cursos de Pedagogia e Licenciatura, para que os mesmos possam compreender que a brinquedoteca foi criada para todas as crianças que perderam o espaço e o tempo para brincar.
Encerramos agora com um pequeno trecho escrito por Freinet no seu livro “A pedagogia do bom senso”, que entre outras coisas o autor chama-nos a atenção para um fato que já o preocupava no seu tempo:
“que uma vez formados educadores, parece que nos distanciamos mais e mais de nossa própria infância”.

Referências Bibliográficas
KISHIMOTO, Tisuko Morchida (Org.). Jogo, Brinquedo, Brincadeira e a Educação. São Paulo: CORTEZ, 1996.
CUNHA, Nylse Helena Silva. Brinquedoteca: um mergulho no brincar. São Paulo: MALTESE, 1994.
FRIEDMANN, Adriana (Org.). O direito de brincar: A brinquedoteca. São Paulo: SCRITTA: Abrinq. 1996